Transição Socialista

Eleições 2014: erros e acertos

 

A derrocada de Marina e ascensão de Aécio na reta final da corrida presidencial parecem jogar um balde de água fria nas expectativas de uma mudança na política nacional pós-manifestações de junho. No entanto, se analisado detalhadamente o resultado se revela bem mais complexo e contraditório.

Em primeiro lugar, o fenômeno Marina. Ela não representava o “novo”, ao menos, não como ela queria fazer crer. Sua grande qualidade era a de representar uma possibilidade de substituição do PT no poder por um grupo político enormemente mais frágil e despreparado, o que, sem dúvida, aprofundaria as contradições internas à crise da dominação burguesa no país. De qualquer modo, suas fragilidades se mostraram evidentes antes mesmo da eleição, impedindo-a de seguir para o 2o. turno. É verdade, porém, que Marina foi massacrada pelo aparato estatal de Dilma e pelo apoio velado dos grandes veículos de comunicação à candidatura de Aécio.

Sem Marina no páreo, reeditou-se o feijão com arroz da “velha política”: PT x PSDB. Em relação à 2010, a grande diferença é que se evidencia com maior clareza o descontentamento popular com o governo petista, projetando um 2o. turno mais acirrado; uma análise do mapa de votação das duas eleições, mostra como Aécio chega vitorioso em 10 estados, contra 09 de José Serra, mas Dilma sai derrotada em mais dois estados, em 2014, – Acre e Pernambuco – redutos levados por Marina Silva. Ainda na comparação com 2010, o PSDB conquistou 2 % a mais de votos, Marina, também 2, enquanto Dilma caiu 5%.

Esse quadro similar entre 2010 e 2014, além de apontar uma leve vantagem para o PSDB, traz uma mudança bastante substancial que a grande imprensa não noticia: o avanço das candidaturas da esquerda socialista e, sobretudo, o expressivo aumento dos votos nulos/brancos e não-votantes. Houve um aumento de cerca de 7% de não-votantes em relação a 2010, ficando em quase 20% do eleitorado. Se este número for somado a brancos (3,85%) e nulos (5,78%) chega-se a quase 30 % do eleitorado não se decidindo por nenhum candidato! Desse modo, pode-se dizer que o terceiro candidato mais votado, à frente inclusive de Marina Silva, foi o não-candidato, o anti-candidato, misto de desinteresse e repúdio às eleições.

O outro aspecto a ser analisado é o avanço das candidaturas de esquerda. Luciana Genro conquistou o 4o. lugar, atrás apenas dos 3 grandes, crescendo 80% em relação a 2010. No legislativo, porém, o avanço foi mais expressivo. Houve um aumento da bancada em 2/3, no caso dos deputados federais (5 eleitos); no caso dos estaduais a bancada do PSOL tripicou (12 eleitos). É importante destacar também o desempenho do candidato ao governo do Rio pelo PSOL, prof. Tarcísio Motta que fez uma campanha contra os abusos da polícia militar e a repressão nos morros, ele atingiu 8,92% dos votos, colando no candidato petista, Lindberg Farias. O PSTU também cresceu, quase dobrando sua votação em relação a 2010, de 800 mil para 1,5 milhão de eleitores.

Como se vê, é possível identificar um resultado positivo para a “esquerda socialista” nestas eleições, bem como encontrar nele ecos das manifestações de junho. Entretanto, os números não são só flores. E aqui não se trata apenas de lamentar a vitória da candidatura de Geraldo Alckmin em São Paulo. Para a massa, tais candidaturas como esta não aparecem sendo de “direita”, segundo o ideário das camadas mais intelectualizadas e pequeno-burguesas; não, para a massa, o PSDB representa, antes de mais nada, uma alternativa ao PT e apenas isso, prova disso é que, em São Paulo, o PT não venceu mesmo em seus redutos mais tradicionais, como no ABC – revelando o seu enfraquecimento nos grandes centros urbanos. O fato dessa “alternativa” ser falsa não deve, por outro lado, validar o discurso igualmente falso do PT como “o menos pior”, PT e PSDB governam para a burguesia, sob as regras impostas pelo grande capital e seus aliados. Entretanto, como dissemos, este não deve ser o ponto principal de uma análise socialista sobre as eleições.

Na verdade, o problema continua a ser o mesmo de 2010: a esquerda socialista não é capaz de formar uma unidade que resulte em uma FRENTE ÚNICA congregando uma única voz e uma única alternativa para os trabalhadores e a juventude diante do capital e dos partidos burgueses. Fica evidente que a esquerda não consegue aparecer para grande massa, permanecendo, salvo algumas exceções, refém de redutos muito restritos e pequeno-burgueses, não aproveitando plenamente todo o potencial das manifestações de junho; é como se aquela cena da massa repudiando as bandeiras na avenida paulista se repetisse hoje – pois a esquerda ainda é vista como uma variante obscura do PT e não como algo oposto a ele.

Outro aspecto bastante sério é que a extrema direita cresce em ritmo mais acelerado que a esquerda socialista, como atestam o crescimento da “bancada da bala” e dos “candidatos-pastores”, na casa dos milhões de votos. É inegável que o êxito destes setores seja beneficiado por campanhas caríssimas, mas reflete também uma virtuosa capacidade de comunicação com o eleitorado popular que já não acredita nos políticos burgueses tradicionais e se apega a um discurso ultra-conservador e/ou fascista para superar a crise. Nesse sentido, ainda que a candidatura de Luciana Genro acerte em defender os direitos das mulheres no que concerne ao aborto e, das minorias, praticamente deixa de travar um combate claro contra o desemprego, a carestia de vida e a inflação do ponto-de-vista de um programa socialista, ou seja, de um governo dos trabalhadores. Sua posição parece guiar-se mais ao sabor das polêmicas imediatas, do que constituir uma análise séria sobre a grave crise econômica que vem se aproximando dia a dia. Aliás, esta visão imediatista parece ser a marca dos socialistas nesta eleição. É preciso ir além, muito além.