Transição Socialista

O QUE ESTÁ POR TRÁS DO TEATRO TRUMP-MADURO?

Contribuição individual do camarada GGM para a Transição Socialista

No dia 03 de janeiro de 2026, os Estados Unidos bombardearam a Venezuela e sua capital, Caracas. Sem praticamente nenhuma resistência do exército local, o ditador chavista Nicolás Maduro e sua esposa foram capturados enquanto dormiam. A alegação oficial do governo de Donald Trump é de que Maduro liderava a facção narcotraficante Cartel de los Soles. Ausente de provas e de evidências factuais, o exército americano foi mobilizado para que o chefe de Estado venezuelano saísse do poder. Navios foram atacados, bases petroleiras foram capturadas. Tratou-se, inegavelmente, de uma agressão em moldes imperialistas. A última vez que os EUA intervieram num país latino-americano foi em 1989, no Panamá, culminando na rendição do general Manuel Noriega, também acusado fragilmente de ser um líder narcotraficante no país.

Constatar que houve uma agressão na Venezuela é, por outro lado, indicar tão somente o fato tal como ele se apresenta. O que pretendemos aqui é entender os fundamentos desse acontecimento, suas razões materiais menos aparentes e que exigem mais frieza. Neste texto, não faremos coro com o choro nacionalista de setores hegemônicos da esquerda brasileira que se resumem a gritar “tirem as mãos da Venezuela!”. Ou até mesmo correntes mais alinhadas ao chavismo e que ainda podem se prestar a defender o indefensável Nicolás Maduro. O princípio que norteia nossa intervenção é o do internacionalismo proletário. Isso nos leva a olhar para as principais tendências da economia americana no limiar desse último evento militar, assim como para os problemas que a classe trabalhadora vem enfrentando tanto nos EUA quanto na Venezuela.

  1. EUA: uma potência que se arrasta 

Quando o noticiário corrente, de linha editorial burguesa, trata de economia, só três coisas importam: variação percentual do PIB, inflação e taxa de desemprego. Se a primeira variável é positiva e a terceira está baixa, anunciam aliviados de que a recessão não chegou. Daí então chamam um economista “do mercado” que faz o alerta para a segunda variável. “Se o desemprego está baixo, a economia acelera e a inflação pode aumentar”. E então, com a profundidade de um pires, não explicam um centímetro do problema, resumindo-se aos fatos prontos e às contas e rubricas pertinentes à administração do capital. Quando tratamos dos EUA como uma potência que se arrasta, estamos olhando para aquilo que melhor se aproxima das tendências internas do modo de produção capitalista neste país: o ritmo da produção industrial, de seu grau de utilização da capacidade, da produtividade do trabalho e do custo unitário do trabalho (indicador aproximado do valor da força de trabalho).

Quando olhamos para o histórico da produção industrial e de sua capacidade instalada, o que se verifica é que elas não saíram do lugar desde 2010. A indústria americana anda de lado há quinze anos. Ela não só é incapaz de aumentar a taxa em que lança mercadorias na esfera da circulação, como também não consegue ampliar seu maquinário e sua infraestrutura. Em suma, sua capacidade de reinvestimento para ampliação do parque industrial, a capitalização da mais-valia, mostra-se limitada:

O gráfico traz os valores para a indústria como um todo, mas também destaca o setor específico da manufatura, o qual engloba a indústria de transformação. Este setor tem uma importância especial, já que transforma as matérias-primas em mercadorias mediante a aplicação da força-de-trabalho nos meios de produção adequados a um dado ramo. Ou seja, é o que faz a roda capitalista girar e sustentar as demais atividades. O coração do sistema. Hoje, falta-lhe o impulso para continuar batendo.

O que esse gráfico significa do ponto de vista da acumulação de capital? Para responder a esse questionamento, é necessário recuperar o conceito de reprodução simples e reprodução em escala ampliada, como consta em O Capital de Marx.

Todo modo de produção é também um modo de reprodução da vida material. Necessariamente, o assalariado de hoje deve ser reposto pelo assalariado de amanhã. O meio de produção utilizado para produzir mercadorias hoje precisa ser utilizado amanhã na mesma finalidade. O burguês que lucra hoje deverá lucrar amanhã. 

No capitalismo, a reprodução significa converter dinheiro em capital. Inicialmente, meios de produção e força de trabalho foram comprados para produzir novas mercadorias. Na segunda fase, a mercadoria é vendida a um valor maior que a soma inicial, criando um excedente que deve retornar ao processo produtivo. Nesse processo, o dinheiro aumentado do capitalista é utilizado na aquisição de novos meios de produção (máquinas, instrumentos e objetos de trabalho, a parcela constante do capital) e de força de trabalho (parcela variável do capital).

Na forma simples da reprodução, toda a mais-valia criada e realizada no processo de produção e circulação de mercadorias é usada para o consumo privado e improdutivo do capitalista. Não há aqui, de um período para o outro, a aplicação do excedente na produção. Nesse caso inicial, é como se o próprio sistema ficasse inerte, apenas rodando em torno do próprio eixo até o momento em que o capital inicial se esgota. Essa forma, porém, é um quadro essencialmente teórico. Trata-se de um momento necessário na exposição de Marx para adentrarmos no problema da acumulação capitalista, da reprodução em escala ampliada. 

Aqui, a mais-valia é convertida em capital. O capital é acumulado. Da combinação de meios de produção e força-de-trabalho nasceu um excedente cuja função é adquirir novos meios de produção e mais força-de-trabalho. Só se torna capital aquilo que se utiliza no processo de produção e de valorização: máquinas, músculos e cérebros. No caso, isso se dá em forma sempre aumentada. Dinheiro convertido em capital para gerar mais dinheiro que será convertido em mais capital e assim por diante.

Esse retorno ao que Marx nos trouxe, 150 anos atrás, sobre a acumulação de capital, foi necessário para pensar o quadro da indústria americana atual. Sua produção e tampouco sua capacidade instalada conseguem aumentar em taxas sucessivas. Seria uma evidência factual da reprodução simples? Não acreditamos. A reprodução simples não existe na realidade do modo de produção capitalista. Numa situação hipotética, se os EUA estivessem nesse quadro, a produção industrial e a capacidade começariam a decrescer, pois não haveria excedente passível de capitalização. Na realidade, entendemos que a indústria de transformação do país vive um regime de reprodução em escala ampliada com baixa taxa de valorização do capital, incapaz de reinvestir a níveis satisfatórios que permitam uma expansão produtiva. A acumulação existe apenas para manter a máquina rodando. Isso se revela quando observamos a taxa de utilização da capacidade instalada:

Historicamente, a taxa de utilização se mantém em níveis satisfatórios, oscilando (exceto nos períodos de recessão), entre 75% e 85%. Ou seja, existe mais-valia suficiente para manter os meios de produção e a força de trabalho em atividade. O que não há, porém, é excedente o bastante para expandir o parque industrial preservando essa taxa. Como os capitalistas podem sair desse impasse? 

A aceleração do processo de acumulação depende da intensificação da exploração da classe trabalhadora, da criação de uma maior massa de mais-valia. É possível, por um lado, realizar isso mediante extensão da jornada de trabalho ou até mesmo corte de salários. Nas principais potências capitalistas atuais, aquelas nas quais a mais-valia é extraída em sua forma relativa, porém, o mecanismo é muito mais eficiente. A exploração é intensificada com base na elevação da produtividade do trabalho. O desenvolvimento da técnica, a ampliação da escala produtiva, a aplicação rigorosa da ciência, nos marcos da propriedade burguesa, serviu para aumentar a capacidade de um trabalhador gerar uma soma maior de excedentes sem ter que elevar a jornada de trabalho ou cortar salários. Esse processo diminui o salário em relação à mais-valia criada, mesmo que ele aumente em termos reais. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento da força produtiva do trabalho que amplia a massa de capital manifesta-se como uma propriedade natural do próprio capital. A extração aumentada de mais-valia de cada proletário aparece como um movimento automático de valorização do capital.

O capitalista americano, então, respira aliviado. “Vivo numa economia altamente produtiva, meu trabalhador é barato quando comparado ao valor que ele adiciona”. E assim que ele abre os dados, entra em pânico. Pois o custo unitário do trabalho vem aumentando ano após ano, ao mesmo tempo em que a produtividade do trabalho na indústria de transformação estagnou a níveis abaixo do pré-crise de 2008:

Notem como a produtividade não cresceu de maneira sustentada na indústria de transformação entre 2008 e 2018. A partir de 2018, ainda antes da pandemia, ela já apresentava tendência de queda. O “repique” de 2021 explica-se por uma recuperação sobre uma base baixa provocada pelo choque pandêmico. Logo em 2022, no entanto, ela já volta a trilhar seu caminho descendente. É um quadro bastante diferente daquele entre 2002 e 2008, período entre duas recessões. Lá, o indicador apresentou um ritmo de crescimento consistente, correlacionado com o robusto comportamento do produto e da capacidade instalada naquela época. Na última década, porém, o operário americano não foi explorado em níveis satisfatórios a ponto de produzir uma massa de excedente suficiente para ser investido e expandir o ritmo de acumulação de capital. A taxa de exploração, determinada especialmente pela produtividade (considerando que estamos tratando de uma economia pautada pela mais-valia relativa) está comprometida. Ela garante que a indústria continue rodando e existindo num patamar elevado para os padrões internacionais. Mas não cria condições de expansão.

Numa relação inversa ao indicador de produtividade, há o custo unitário do trabalho. De fato, quanto maior a massa salarial em proporção ao total de valor adicionado na economia, menor é a mais-valia apropriada pelo capitalista. Num quadro de baixa produtividade, é preciso mais trabalhadores para produzir a mesma soma de valor que seria gerada com menos funcionários se a produtividade fosse maior. Assim, um CUT maior indica um emprego mais custoso e menos rentável da mão-de-obra, influindo negativamente sobre a taxa de lucro. No período entre recessões, o CUT manteve-se em níveis bastante reduzidos, acompanhando o crescimento sustentado da produtividade. Após 2008, vemos uma nova tendência. A eficiência do operário americano, sua capacidade de ser mais explorado pelo capitalista, diminui ano após ano! O CUT aumenta de forma quase ininterrupta desde 2014.

A burguesia industrial americana se encontra numa sinuca de bico. Ela acumula o suficiente para sobreviver, mas não o bastante para preservar sua dominância industrial na concorrência intercapitalista a nível mundial. Ao mesmo tempo, ela não encontra escape em seus trabalhadores. Tudo indica que a ampliação da exploração mediante mecanismos relativos de geração de mais-valia – incremento tecnológico, melhora da produtividade, diminuição dos custos de subsistência da mão-de-obra – está chegando no limite. Não é impossível que ela recorra a expedientes da mais-valia absoluta: corte de salários, enfraquecimento de organizações sindicais, reformas trabalhistas que flexibilizam a jornada de trabalho, exaustão física e mental. Ela enfrentaria, porém, uma resistência considerável da classe trabalhadora. Em 2021, mais de 100 mil trabalhadores do setor de saúde e da distribuição de alimentos realizaram paralisações exigindo melhores condições de trabalho e diminuição de jornada. 2022 foi o ano de maior número de greves nos EUA, com mais de 250 mil trabalhadores em paralisações. Em 2024, 36 portos foram afetados por uma paralisação que envolveu 40 mil estivadores exigindo maiores salários. E isso num momento em que o Governo Trump necessita do apoio eleitoral do proletariado americano, especialmente na indústria. Será que recorrer a esse expediente é cutucar a onça com vara curta?

De toda forma, outro caminho se abriu para os capitalistas americanos capitaneados por Trump: a geopolítica militarizada. Restou a exportação da contradição interna para o resto do mundo. É aqui que entra em cena a Venezuela e seu pífio ditador.

  1. Por que a Venezuela?

A primeira resposta que vem à mente é o petróleo. É sabido que a Venezuela tem uma das principais reservas dessa matéria-prima no mundo, com 17% do total conhecido no mundo, equivalente a uma capacidade potencial de 300 milhões de barris. Suas parcas forças produtivas e o sucateamento prolongado decorrente da falência da estatal PDVSA, no entanto, impedem uma extração eficiente e tornam inalcançáveis boa parte dessa commodity, que se encontra num estado extrapesado, exigindo alto grau tecnológico e produtivo para viabilizar uma produção lucrativa. Para se ter uma ideia, a Venezuela produzia 3,7 milhões de barris por dia em 1970 e em 2021 esse nível baixou para 665 mil barris, de acordo com a Statistical Review of World Energy. Dizer que ela tem uma grande reserva de petróleo é, portanto, uma forma imprecisa que mascara o fato de que o país tem uma reserva volumosa de petróleo cru, extrapesado, altamente denso e viscoso, com pouquíssima viabilidade econômica atualmente.

Os capitalistas petrolíferos dos EUA, diante desse quadro, olham com atenção para a possibilidade de assumir a infraestrutura local e gerar lucros consistentes a longo prazo com a extração, o refino e a comercialização petrolífera. Atualmente, a principal companhia americana que atua na Venezuela é a Chevron, presente no país desde 1923 e que já afirmou estar preparada “para trabalhar construtivamente com o governo dos EUA durante este período [pós captura de Maduro], aproveitando nossa experiência e presença para fortalecer a segurança energética dos EUA”. Ao mesmo tempo, a Exxon Mobil e a Conoco Phillips, suas principais concorrentes, contam com apoio do Secretário de Estado Marco Rubio, entusiasta da expansão militarista americana pelos países vizinhos. Essas empresas perderam suas licenças nos anos 2000, depois dos litígios envolvendo os planos de nacionalização de Hugo Chávez. 

Ao lado da Venezuela, na província de Essequibo, na Guiana, temos uma mina de petróleo já partilhada entre diversas empresas americanas, inglesas e chinesas. Exxon Mobil, Hess Corporation, Chevron, Shell e CNOOC são algumas das principais corporações que já exploram o mineral no país vizinho. Descoberto em Essequibo no ano de 2015, trata-se de um reservatório novo, com amplas possibilidades de exploração lucrativa. O estapafúrdio decreto de Maduro, que ano passado anunciou a anexação da província guianesa ao território venezuelano, significava uma turbulência geopolítica que em nada agradava aos capitalistas do setor. É claro que tal anexação nunca sairia do papel. Era muito mais uma tentativa inócua do regime chavista de abafar e causar diversionismo interno diante das tensões sociais que enfrentava no país. De toda forma, representava um potencial de conflito político que se chocava com os interesses de um setor relevante da burguesia internacional.

Nesse sentido, é plausível pensar que a ação militar de Trump foi em partes influenciada por interesses da burguesia americana voltada à produção dessa commodity. Sua afirmação de que vai fazer com que grandes empresas americanas, “as maiores do mundo, entrem, gastem bilhões de dólares, consertem a infraestrutura muito danificada, a infraestrutura do petróleo, e comecem a gerar dinheiro para o país” é reveladora. Poucos dias depois, executivos das principais petrolíferas americanas já manifestaram interesse em conversar com o governo americano para traçarem conjuntamente o melhor manejo e aproveitamento desse recurso mineral. O bombardeio e a deposição forçada de Nicolás Maduro limpa o terreno para a entrada de mais empresas do ramo interessadas em lucrar com o petróleo. Permite uma eventual composição política e constitucional que diminua o peso da PDVSA e amplie as margens de atuação de outros capitalistas internacionais. Deve inclusive beneficiar, num prazo relativamente curto, a própria burocracia chavista. Incapaz de conduzir uma atividade custosa como a extração de seu petróleo, ela poderia viver da renda apropriada a partir da exploração de suas minas e refinarias por empresas privadas estrangeiras. Estas sim com capacidade de alavancar a produtividade no longo prazo.

As palavras, no entanto, não necessariamente correspondem à exatidão dos fatos. A vontade individual de um presidente, seu discurso efusivo e midiático, não basta para garantir segurança e lucros para os burgueses interessados no petróleo venezuelano e guianense. Como falamos, lá a commodity se encontra num estado extrapesado, o que encarece seus custos de produção. Por maior que seja o know-how técnico de uma Chevron, a ampliação da produção em 500 mil barris por dia custaria US$10 bilhões, demorando pelo menos dois anos para se completar, de acordo com a Energy Aspects. Limpar o terreno com a retirada de Maduro seria tão somente o primeiro ato, sem nenhuma garantia de sucesso a curto prazo e ainda dependendo de acordos dos capitalistas internacionais tanto com o governo americano quanto com o novo governo venezuelano.

Ao mesmo tempo, hoje é sabido que os EUA são autossuficientes na produção de petróleo, extraindo boa parte dele a partir do óleo de xisto com base no fraturamento hidráulico. A mistura de água, areia e químicos, injetados em alta pressão, fratura rochas e libera gás natural e óleo. Além disso, essa fonte de produção de petróleo gera um produto muito mais leve e que, em maior escala, barateia os custos de mineração e extração. Não por acaso, desde meados da década passada, os níveis de produção americana da commodity aumentam consistentemente, ano após ano. Hoje, os EUA são os maiores produtores, superando os tradicionais Rússia e Arábia Saudita. Parte dessa produção é inclusive exportada, algo que, antes do xisto, era muito mais difícil.

É inegável, por outro lado, que a produção também sustenta o mercado interno americano, dada a complexidade e as diversas ramificações de sua economia, criando uma demanda energética considerável. Isso obriga o país a continuar importando petróleo de outros lugares, inclusive do Brasil, detentor de extensas reservas de pré-sal, além dos membros tradicionais da OPEP. A abertura da Venezuela à entrada de companhias americanas nesse setor, portanto, pode ampliar a oferta potencial dessa commodity. Além disso, cria espaço para que a iniciativa privada lucre com a produção e a venda de petróleo e derivados para o mundo inteiro, inclusive os EUA. Tudo isso, porém, é um processo lento e de longo prazo, considerando as especificidades do petróleo venezuelano, como já mencionamos acima.

Em suma, é temerário afirmar que a ação militar na Venezuela esteja resumida a suprir uma necessidade americana por petróleo. O problema é muito mais complexo. As reservas pouco exploradas desse país aparecem como uma oportunidade que alivia preços, cria uma nova fonte de fornecimento e abre porta para atividades lucrativas de empresas tradicionais do ramo, mas não significa que o “roubo do petróleo venezuelano” será o santo graal da dita soberania energética dos EUA. 

Na realidade, é uma tradição da esquerda brasileira, contaminada pelo chauvinismo e pelo nacionalismo, atribuir qualquer ação geopolítica americana na América Latina e no Oriente Médio à busca por petróleo. Quase como um espantalho, ergue-se uma defesa do petróleo nacional sem nenhum critério classista, abrindo margem para todo tipo de aliança com a burguesia e a burocracia locais. Sequer consideram que no próprio setor existem concorrências entre capitalistas, além das dificuldades que envolvem custos elevados de extração da commodity em sua forma bruta, como é o caso específico venezuelano. A Exxon, a Conoco Phillips e a Chevron são concorrentes não só do ponto de vista comercial, mas também em relação à forma de condução geopolítica dos EUA nos países dentro de sua zona de influência. Como falamos, Conoco e Exxon, desejando retornar à Venezuela, contam com maior alinhamento ao trumpismo e a seu secretário Rubio. A Chevron, por sua vez, já estando lá, prefere uma abordagem diplomática mais suave, vinculada à figura do diplomata Richard Grenell, optando por uma negociação comercial bilateral. Assim, se por um lado os eventos recentes suprem um interesse geral dos capitalistas petrolíferos pela “limpeza do terreno” em benefício de suas atividades, isso não exclui a possibilidade de conflitos internos nesse segmento burguês e na própria administração Trump. 

Mas essas considerações, adequadas à complexidade do problema que tratamos aqui, passam longe da esquerda nacionalista. Ela se baseia em associações simplistas do tipo “EUA + Petróleo = invasão imperialista” e então ergue uma bandeira de aliança com as burguesias locais para defendê-las, assim como suas instâncias políticas burocráticas.

O petróleo é só a primeira camada, o primeiro nível explicativo. Como falamos na primeira parte, a economia americana se arrasta num regime de acumulação incapaz de fazer sua indústria de transformação crescer, sem poder recorrer ao expediente de elevação da produtividade do proletariado local. É bastante plausível, diante desse quadro, que a máquina de guerra seja acionada como recurso para reaquecer o departamento I dos EUA, aquele responsável pela produção dos meios de produção, regulador da dinâmica de acumulação. A guerra é uma potência econômica a partir do momento em que ela mobiliza recursos na compra de matérias-primas, de veículos pesados, e no investimento tecnológico e de pesquisa científica. Vejamos os gráficos abaixo:

Note que, nos principais setores do departamento II, responsável pela produção dos meios de subsistência da classe trabalhadora, o produto industrial não cresce substancialmente desde pelo menos 2015. Especialmente nos bens de consumo duráveis e não duráveis e no setor da construção civil. Por outro lado, o setor de energia vem apresentando incrementos positivos sucessivos desde 2020. Os setores de defesa e espacial apresentaram no último ano um ligeiro aumento, depois de um período de estabilidade desde o início da pandemia. No gráfico abaixo, produzido pelo Banco Mundial, vemos a evolução dos gastos com defesa em proporção do PIB americano:

Note que, depois de uma constante diminuição durante o segundo mandato de Barack Obama, o primeiro governo Trump iniciou uma retomada dos gastos com defesa, a qual não foi seguida por Biden, mas que deve voltar no Trump II. Para o segundo mandato, ainda não temos os dados de 2025 consolidados, mas o orçamento indicava uma despesa entre US$832 bilhões e US$850 bilhões, mais do que os US$824 bilhões realizados em 2024, beneficiando empresas tradicionais do setor, tais como Lockheed Martin, Huntington Ingalls, General Dynamics e Northrop Grumman, de acordo com a Fitch Ratings. Já o orçamento de 2026 projeta uma despesa recorde em defesa, alcançando a cifra de US$901 bilhões. Há um indicativo, portanto, de que a segunda administração de Trump aposta ainda mais suas fichas na escalada militar como eixo decisivo de sustentação do governo.

Qual a importância de ressaltar as rubricas que mencionamos acima? Essas três contas pertencem ao departamento I, mas se relacionam intimamente com a indústria armamentista, o grande trunfo do presidente americano. O que está por trás disso?

Como Marx explicou em suas observações sobre a reprodução em escala ampliada, o departamento I regula a acumulação do departamento II, e com isso dita o ritmo de funcionamento econômico, quando a soma do salário e da mais-valia de I é maior do que a soma de meios de produção de II. Nesse caso, os salários dos trabalhadores de I e a mais-valia destinada ao consumo dos capitalistas desse setor, são direcionados à compra das mercadorias produzidas em II. Com isso, obriga a burguesia desse departamento a capitalizar ainda mais seu excedente em troca de mais meios de produção e força-de-trabalho, com vistas a adequar-se à demanda do outro departamento. Dizemos que I é o setor dinâmico da reprodução porque ele leva II a acumular ainda mais do que o inicialmente planejado. O contrário não é verdadeiro, dado que as demandas dos trabalhadores e dos capitalistas de II se resolvem dentro do próprio departamento, não “transbordando” para o restante da economia.

Marx não indicou, a partir disso, que somente a guerra é capaz de produzir tal condição. É necessário tomar cuidado para não cair numa fetichização desse fenômeno, numa análise catastrofista do capital que se resume sempre a esperar pela guerra como a única resolução possível das contradições. Na realidade, estamos partindo de raciocínios do comunista alemão pensados para a dinâmica normal do modo de produção capitalista, na qual outros segmentos do departamento I podem reativar os demais circuitos de acumulação. Esses raciocínios é que devem sustentar nosso argumento de que, no contexto específico da administração Trump, a militarização americana vem sendo uma válvula de escape útil para superar entraves que a economia dos EUA vem enfrentando. A produção de armamentos, com riscos assumidos majoritariamente pelo Estado, aciona as empresas do setor de bens duráveis e de bens de capital, ativa grandes massas de capital constante e de força de trabalho qualificada, capaz de valorizar o valor num ritmo efetivamente satisfatório. Fomenta a demanda por matérias-primas em montantes muito maiores do que na produção de bens de consumo. A destruição de forças produtivas por meio da guerra torna-se um caminho para extrair mais-valia em taxas maiores.

Para se ter uma ideia, empresas atuando na tecnologia militar de ponta, via produção de drones e aplicação de inteligência artificial, como a Kratos e a Palantir Technologies, apresentaram lucros recordes em 2025. São empresas mais intensivas em capital, com custos mais baixos de mão-de-obra, adaptados a um novo tipo de conflito militar. Tanques e veículos pesados darão lugar aos drones, aos satélites, às tecnologias mais avançadas e de alta produtividade. Tais empresas aparecem como a ponta-de-lança dessa tendência. Suas ações mais que dobraram de valor. Além disso, o S&P 1500 Aerospace and Defense, que congrega 24 empresas do ramo, incrementou em 41% seus retornos na bolsa:

Também as companhias mais tradicionais, como as já citadas acima, melhoraram suas performances, com investidores bastante encorajados e ansiosos com a guinada militar de Donald Trump. Por outro lado, as tensões geopolíticas criadas pelo atual presidente americano na Europa, em razão de suas decisões mais ou menos desastradas em relação à guerra na Ucrânia, também têm mobilizado os países europeus, antes tradicionais aliados, a reforçarem seus orçamentos de defesa. Fabricantes alemãs e italianas, como a Rheinmetall e a Leonardo, incrementaram seus resultados e, consequentemente, suas posições nas bolsas europeias.

É claro que, em se tratando da vinculação dessas empresas com o mercado acionário, a volatilidade não pode ser descartada. A fuga dos investidores no caso de uma maior percepção de risco pode representar um derretimento no valor dos títulos dessas empresas que hoje nadam em céu de brigadeiro. 

Além disso, outro elemento complexifica ainda mais o quadro. É difícil mensurar quantitativamente, mas a relação entre o gasto estatal improdutivo e o investimento privado com vistas ao lucro é um fator decisivo para tornar a guerra uma atividade econômica atrativa. Se o Estado, a partir de fundos oriundos da tributação sobre o valor adicionado pelo setor privado, participa mais do que os capitalistas na criação do aparato militar, centralizando esse movimento, ele afugenta empresas que podem lucrar com a guerra. Não podemos descartar que a política fiscal de Trump, altamente gastadora e deficitária, consiga tal proeza. O que vemos hoje, de toda forma, é todo um setor de burgueses animados com as fábulas de dinheiro que os bombardeios, as invasões e a destruição podem trazer.  

Essa é a camada mais profunda por trás das ações recentes na Venezuela. Sem sombra de dúvida, há uma busca de Trump pela retomada de uma hegemonia geopolítica dos EUA na América Latina, num momento em que a China aparece como parceira comercial e industrial relevante para as principais economias locais, tais como Brasil, Argentina e México. Também não podemos duvidar do interesse pelas matérias primas decisivas que se encontram neste continente (não só petróleo, mas também terras raras e demais commodities agrícolas) e que podem refluir como capital constante do departamento I nos EUA. Tudo isso, no entanto, são as manifestações concretas, os desdobramentos factuais de uma dinâmica oculta da produção capitalista e que escapa ao noticiário imediato. Nesse sentido, a Venezuela parece ser a porta de entrada dessa estratégia geopolítica e militar americana.

  1. Trump: bombeiro de um país em chamas

A captura de um presidente pelo exército estrangeiro merece certamente a capa dos jornais. Não deixa de soar estranho, porém, que a resistência local a isso foi mínima. O exército venezuelano pouco fez para impedir que Maduro fosse levado para a prisão. Não podemos duvidar de traições entre os militares e a alta cúpula burocrática. Tratando-se de um regime marcado pela corrupção desenfreada, o preço para compactuar com a intentona trumpista pode ser bem baixo. Mas, para além das hipóteses de conspiração dentro do governo, o fato é que sequer houve uma resistência e uma confrontação popular espontânea contra a agressão dos EUA. Prova post festum de que a classe trabalhadora venezuelana vivia sob o jugo de uma ditadura indefensável.

Podemos estar incorrendo em repetição, mas é necessário falar mais uma vez. O regime chavista de Nicolás Maduro não se aproximou nenhum centímetro do socialismo. A caracterização mais precisa é a de um governo bonapartista, sustentado na alta cúpula militar venezuelana construída ao longo de anos sob a batuta de Hugo Chávez. A mentirosa denominação de “socialismo bolivariano” esconde uma brutal repressão sobre os trabalhadores da Venezuela, levada adiante pela burocracia política que se conectou umbilicalmente às instâncias estatais da atividade econômica, em especial à PDVSA. Sob forte repressão policial, o proletariado venezuelano assistia à diminuição sensível de seu nível de vida, de suas condições de sobrevivência, assolados por uma inflação desenfreada. Militantes e ativistas sindicais foram presos, alguns nunca mais retornaram. Milhares de trabalhadores foram mortos em manifestações contra uma ditadura que, usando o nome de socialista, afastou-os ainda mais de qualquer espaço diretivo da vida econômica e social. Cada eleição legislativa e presidencial revelava o descontentamento de camadas significativas da população venezuelana contra Maduro, que precisava recorrer mais e mais ao uso da violência do exército e de suas milícias contratadas, assim como à fraude da contagem de votos.

É evidente que um quadro como esse continha um potencial de tensão e de convulsão social capaz de virar de ponta cabeça não só o regime chavista, mas também atividades que interessavam aos segmentos burgueses que já mencionamos aqui. Em suma, o bonapartismo venezuelano mostrou-se incapaz de controlar suas próprias contradições. Inicialmente um soberano acima das classes, ao fim do dia se viu abaixo do seu castelo desmoronado. O capitalismo na Venezuela deixou de ser funcional. Mas precisa voltar a sê-lo para a burguesia que lá atua.

É nesse sentido que a agressão de Trump serve como uma solução para o próprio chavismo, no sentido de que ela pode habilitar novamente a Venezuela a se tornar atrativa para os capitalistas locais e internacionais, a começar pelo ramo do petróleo. Um dia depois da operação de captura, Marco Rubio já adotou uma postura mais cautelosa que a de Trump, dizendo que os EUA não irão governar a Venezuela diretamente, nem mesmo ditar a política local. Mais que isso, a presidente interina continuará sendo do grupo chavista! Ela, por sua vez, já declarou que pretende colaborar com o governo americano. Fontes da diplomacia dos dois países já confirmaram que, meses antes da captura, Delcy Rodriguez e seu irmão Jorge já negociavam a atual acomodação política com o governo americano. Claro, é muito mais prático contar com a expertise de uma burocrata que conhece o funcionamento do Estado e das instituições locais do que deixar qualquer aventureiro – do tipo de Corina ou Guaidó – assumirem o poder. É inclusive mais prático e inteligente do que o próprio governo americano assumir diretamente um país instável e em crise. É possível que os EUA apoiem uma progressão a um regime burguês mais flexível que permita a entrada de mais empresas nos principais setores do país, diminuindo a influência da PDVSA nos rumos da economia.

Em suma, a captura de Maduro também se revela enquanto pacto de Trump com a camarilha chavista para garantir o controle de tensões sociais que a ditadura não foi capaz de resolver. Se a campanha militar tenta reativar a economia americana na base da força, seu reverso na América do Sul é tentar bloquear qualquer ação independente da classe trabalhadora contra um sistema de exploração que, nas condições específicas da Venezuela, se revestiu também de opressão política e pauperização sensível das condições de sobrevivência.

  1. Soberania nacional ou defesa da classe trabalhadora?

Como já falamos nas páginas acima, a esquerda hegemônica no Brasil tratará o problema a partir de uma matemática simplista na qual os EUA correm atrás de petróleo tal como o gato corre atrás do rato. Uma lógica frágil que serve apenas para sustentar uma postura nacionalista de defesa não da classe trabalhadora venezuelana, mas sim de um Estado Nacional Burguês comandado por uma camarilha dependente da estatal petroleira e da repressão militar para continuar no poder. Ela enxerga por uma lógica binária de disputas entre países, mas não vê os fundamentos ocultos do modo de produção capitalista que orientam a ação geopolítica, como mostramos aqui. Assim, ela se mostra inapta a dialogar com o proletariado venezuelano que, em mais de uma ocasião, se revoltou contra Maduro e a burocracia chavista em defesa de suas condições primárias de vida, de sua liberdade de organização independente e de seus empregos.

Não cabe aqui a defesa de uma soberania nacional em abstrato. Na verdade, não há soberania nem petróleo a defender na Venezuela. A classe trabalhadora não é dona desse petróleo, não comanda o Estado, não pôde até hoje se organizar autonomamente para definir os rumos da economia. Na solução burguesa que Trump e o chavismo propõem no pós-Maduro, ela continuará enfrentando a miséria, a inflação, a carestia no curto e médio prazo. E mesmo que isso se atenue, continuará sendo explorada não diretamente pela burocracia chavista, mas pelas outras empresas locais e estrangeiras, de qualquer país, que terão passe livre para atuar em solo venezuelano. 

Não somos nós, a Transição Socialista, quem devemos ditar o que deve ser feito. São as organizações políticas revolucionárias venezuelanas, por menor que sejam, que saberão o melhor caminho a ser traçado. O máximo com o que podemos contribuir hoje é na agitação de uma linha que aponte à classe trabalhadora venezuelana para a necessidade de se organizarem de forma autônoma em defesa de suas condições de vida mais básicas e sensíveis. A captura de Maduro não significará o fim do chavismo. É muito provável que Delcy Rodríguez governe, nos próximos meses, sob a batuta de Trump e Rubio, dando prosseguimento à ditadura. Por isso mesmo, o combate à burocracia local continua sendo a primeira tarefa dos revolucionários e das oposições sindicais venezuelanas. É possível que o caos instalado por Trump abra flancos no poder estatal, paralisando o Estado em seu interminável combate aos manifestantes e às revoltas sociais. Surge uma oportunidade única para que os agrupamentos de esquerda cresçam, levantando palavras de ordem pela recuperação dos níveis de vida dos trabalhadores. É hora de denunciar os burocratas que tomam conta há décadas dos sindicatos. A desmoralização do chavismo beneficia os revolucionários. Além disso, é fundamental que seja agitada uma manifestação intransigente em defesa da libertação dos presos políticos vítimas da perseguição chavista capitaneada por Maduro. Se os EUA querem “reviver a democracia e a liberdade na Venezuela”, que colaborem com Delcy Rodriguez para soltar os inocentes que há anos padecem nas cadeias do país. Se isso não acontecer, ficará claro que nem o lobo trumpista e nem a raposa chavista estão interessados em melhorar o dia-a-dia do proletariado local. Cabe, mais uma vez, a revolta e a organização independente dos trabalhadores contra seus agressores estrangeiros e, em primeiro lugar, nacionais. A única saída positiva para os trabalhadores é a derrota do chavismo pelas mãos dos trabalhadores.

Antes de encerrar o texto, não podemos deixar de apontar que a resistência na Venezuela ao chavismo e, em especial agora, à agressão americana dá o sinal para os trabalhadores dos EUA. Apesar de não estarmos oficialmente vendo uma recessão por lá, já dissemos que sua economia se arrasta ano após ano. Também o proletariado americano vem enfrentando uma miséria cada vez maior. Atualmente, 47 milhões de habitantes dos EUA vivem em condição de insegurança alimentar e 11% estão na pobreza (em 2020, esse número era de 11,5%, ou seja, pouco mudou). O governo, que acumula sucessivos déficits primários e chega a uma razão dívida pública/PIB beirando o impagável, mostra-se incapaz de continuar com serviços básicos de assistência social. Chegou ao shutdown da máquina pública depois que Trump demorou a negociar com o Congresso um novo teto para o endividamento. Com uma economia que se arrasta e uma classe trabalhadora que sofre, o ataque à Venezuela serve também como uma máscara para problemas internos, procurando abafar tensões sociais que derivam de um quadro silenciosamente calamitoso. 

Pode ser que, diante disso, uma resistência dos trabalhadores venezuelanos venha a ser o pré-requisito para um enfrentamento classista dentro da economia americana, já cumprindo todas as condições para uma ebulição social. O tiro de Trump pode, então, sair pela culatra.