Por FM
“Vai bicho, desafinar o coro dos contentes” (Torquato e Jards)
Nós da TS votamos nulo em 2022. Lá foi mais fácil do que agora. Por quê? A pressão da “esquerda” ou dos “progressistas” para votar em Lula agora foi maior do que há quatro anos. Como explicar isso, se lá saíamos do nefasto governo Bolsonaro?
O motivo é que o governo Lula foi melhor do que o de Bolsonaro. Isso tem que ser explicado, para entender o porquê de críticos agudos ao PT, antigos militantes revolucionários, anarquistas radicais etc., terem passado agora ao voto em Lula.
Esta foi a eleição da Covid, mais do que a de 2022. Essa frase parece não fazer sentido – afinal, lá ainda havia covid –, mas reflitamos juntos.
Muitas pessoas olham para o governo Bolsonaro e sentem um temor quase irracional. É a lembrança, marcada em sua mente e experiência, de um passado de medo, a ser reprimido para o fundo da memória. É genuína a sensação. Especialistas só comparam aquela conjuntura ímpar à de uma guerra. Medo constante, desarticulação do dia a dia, paralisia da ação do Estado (cujos ministros aproveitaram para “passar a boiada”), desabastecimento, fim da previsibilidade. Em situações assim, as pessoas não conseguem planejar as suas vidas.
A vitória de Lula em 2022 foi sentida por uma parcela da população como uma possível virada de página dessa conjuntura desastrosa. E de fato representou isso (basta lembrar da simbologia da subida da rampa do palácio). Foram aos poucos restituídas a normalidade democrática e a previsibilidade econômica. Ajudado por conjuntura econômica mundial relativamente favorável, o governo Lula, mesmo pouco expressivo, assentou-se em números positivos. Aliás, sobre a base negativa do impacto econômico mundial da covid, quase qualquer dado poderia ser positivo (algo que os petistas, nesta eleição, fizeram questão de esquecer). Enfim, as pessoas, aos poucos, respiraram aliviadas, voltaram a (legitimamente) planejar suas vidas. Mas o risco de retorno dos Bolsonaros fez acender em muitos o medo quase inconsciente de retorno ao passado mórbido. Há um componente psicanalítico na atual adesão maior a Lula.
No entanto, o fato de a covid e a “necropolítica” terem se colado à face e ao nome dos Bolsonaros é certo acidente da história. Na Argentina, o kirchnerista Alberto Fernandez buscou uma gestão “científica”, mas mesmo assim ostentou uma curva de mortos similar à brasileira e representa um passado a ser esquecido. No México, o “esquerdista” Andrés Manuel López Obrador fez campanha contra máscaras. A necropolítica poderia hoje ser associada quase inconscientemente ao PT, caso Haddad fosse então presidente. E sem a covid, é possível que o governo de Jair tivesse sido apenas mais um governo medíocre, de palhaços e aventureiros, corrupto e liberal, como tantos outros publicamente associados à “direita”.
Essa situação psicológica dá a chave para a compreensão da situação atual e das deformações políticas que se passam. O prometido governo de Flávio Bolsonaro aparecia a muitos como mais à direita, de “necropolítica”, do que provavelmente seria. E o de Lula, por sua vez, por ser a contraposição ou o símbolo da virada de página, aparecia como mais à esquerda do que será. Quem faz (psica)análise fria da realidade precisa ter clareza de que as coisas estavam exageradas para ambos os lados. Foi só assistir aos debates públicos entre os candidatos para sentir o cheiro estranho no ar, de relativo naufrágio das duas narrativas que se desejam.
A falência da esquerda brasileira
Esse medo psicológico, quase inconsciente, fez a chamada esquerda aderir novamente à mediocridade do vale tudo da política burguesa. André Janones talvez seja o maior símbolo disso. Entrou na política pelo PSC, onde foi colega de partido de Flávio Bolsonaro por vários anos. Depois, tentou ser presidente pelo Avante, partido sabidamente de direita. Admitiu a prática de rachadinha, pois registrada até em áudio. Tem contra si medida protetiva de 2024 de sua ex-mulher, com base na Lei Maria da Penha. É um picareta, do rol de oportunistas da política brasileira. Um Nikolas Ferreira. E, mesmo assim, dirigiu o “exército do Lula” (contraface da “tropa do Flávio”), no qual a “esquerda” vestiu orgulhosamente os símbolos da “direita”, ostentou camiseta nacionalista e por pouco o L (com um jogo de punho) não virou uma arminha.
Outra narrativa é a de que estavam em jogo os programas sociais que Lula teria criado. Tais programas (muitos criados antes da primeira gestão Lula) não são fruto do programa petista, mas das necessidades normais da acumulação capitalista. Podem ser verificados em praticamente todos os grandes países capitalistas em desenvolvimento. Expansão do ensino superior, seguridade social relativa, mecanismos de aumento de consumo (via endividamento) etc., são necessidades gerais do capital para gestão da força de trabalho. Regra geral, quando ainda não existem condições econômicas (lucratividade) para serem privados, tais programas são tocados pelo Estado. Se são públicos ou privados, é um problema da burguesia – pois é ela que paga o grosso dos impostos, como já esclarecemos. Ela o define, às vezes em tentativa e erro, com base nas condições concretas da economia. Os governos, se mais burocratas-estatistas ou mais liberais, expressam as contradições desse processo.
A burguesia dos países capitalistas, desenvolvidos ou em desenvolvimento, precisa de programas como os referidos acima (estatais ou privados), do contrário o grau de exploração dos trabalhadores e a competitividade de suas empresas estão comprometidos. Marx explicou o mecanismo da mais-valia relativa há quase 160 anos. Não faz sentido acreditar que o capitalismo não queira que as pessoas consumam, aumentem seu grau de escolaridade, especialidade técnica etc.
Outro delírio é a tese da submissão colonial ao imperialismo dos EUA. A esquerda acreditou até ser real – não produzido pelos petistas – um míssil escrito “Trump bombardeie o Brasil”! Foi a nova edição das supostas pixações fascistas nos banheiros das universidades públicas de 2018.
O anti-imperialismo, num país como o Brasil, é um dos venenos políticos herdados do stalinismo para atrelar a classe trabalhadora à burguesia nacional. Como se no momento atual do capitalismo brasileiro e mundial, num país como este, houvesse qualquer possibilidade real de regressão colonial! Ignora-se o que significa colonialismo para Marx (já explicamos aqui). O colonialismo é, no geral, uma fase passada do capitalismo, necessária para que as relações econômicas capitalistas se estabeleçam numa determinada região. O colonialismo é, essência, o domínio de um modo de produção sobre outro, não de uma nação sobre outra. Ele não diz respeito a condições financeiras e à exportação de capital, mas à dissolução ou não de relações de produção. O Estado (às vezes estrangeiro) atua violentamente para dissolver as relações pré-capitalistas e dar base às capitalistas. Tão logo estas tenham se estabelecido, um Estado burguês próprio tende processualmente a se formar, expressando uma burguesia autóctone (mais forte ou mais fraca em cada lugar, a depender da situação econômica concreta, da diversidade da economia, do tamanho do mercado interno etc.). Trump não quer colonizar o Brasil. É impossível colonizar uma nação do tamanho e da força econômica da brasileira. Colonialismo traz para dentro da nação colonizadora as contradições da colonizada, amplificando as da primeira. O domínio sobre o pequeno e pobre Afeganistão, por exemplo, já ameaçou implodir os EUA.
Na divisão mundial burguesa do trabalho, dominar o Brasil é tarefa da burguesia brasileira. A política de Trump é o porrete para obter daquela melhores acordos comerciais. Com Lula ou sem Lula, as terras raras – que não são do “povo brasileiro”, mas da burguesia brasileira – serão vendidas aos EUA, à China ou a qualquer outro país. Para o trabalhador que produz os minérios das terras raras, nada será diferente. Ele será explorado por uma empresa brasileira ou estrangeira, ou pelo Estado brasileiro, e o fruto do seu trabalho explorado será vendido. A relação capitalista de exploração, que é a base efetiva da realidade, se manterá. Mas a nossa “esquerda” substitui a exploração do trabalho, a luta de classes real e imanente do trabalhador produtivo, pela metafísica da “geopolítica” mundial. Lula se aproveita do baixo nível do debate e faz o discurso fácil do Brasil “não ser quintal de ninguém”.
Outro veneno herdado do stalinismo é o antifascismo. Dada a indeterminação genética, foi no século XX e continua sendo um instrumento nas mãos da conciliação de classe. Os que exageram o fascismo são em geral os que mais rapidamente relevam posições do PT à direita. Um fenômeno marginal que o expressa é o “anarcopetismo”. Outro, os “guerrilheiros” universitários de bonés do MST, que ignoram que essa empresa tem ações na Bolsa de Valores (graças à ajuda de Alckmin, quando governador). Lula e o PT não acreditam em fascismo. Cientes de que só podiam ter chance de vitória contra Flávio, pouparam-no o ano inteiro. Até setembro, temiam que fosse substituído por Tarcísio Freitas ou por Michele Bolsonaro. Sabiam desde agosto das relações de sociedade de Flávio com Willer Tomaz, mas armaram a PF para agir apenas na véspera da eleição. Poder-se-ia dizer que o PT gosta de dançar à beira do abismo – se o abismo realmente existisse. Na verdade, esse partido gosta mesmo é da narrativa, que torna a esquerda refém, via chantagem política, da polarização que apresenta Lula como única opção.
A passagem da “esquerda revolucionária” à defesa da democracia também revela a sua desmoralização teórica e política. Lembremos: não houve risco real de golpe em 2023. Foram manifestações fracas, que ganharam maior dimensão do que efetivamente tinham porque Gonçalves Dias, então ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) de Lula, em acordo com a cúpula petista, restringiu o efetivo de segurança e mandou praticamente abrir prédios governamentais para a depredação dos lunáticos bolsonaristas (membros da “ralé” produzida, infelizmente, pelo exército industrial de reserva do capital). As forças armadas brasileiras não se dividiram a favor de um golpe.
Então, Alexandre “Master” de Moraes pôde pagar de paladino da democracia. Ele que, à frente da Secretaria de Segurança Pública de SP, dirigiu a ação policial contra a ocupação das escolas secundárias em 2015. E também se pronunciou Alckmin, o responsável pela repressão violenta à ocupação Pinheirinho (São José dos Campos) em 2012 e carrasco, no mais rico Estado da federação, do maior levante proletário das últimas décadas – as manifestações de junho de 2013. E, por fim, Lula, o líder dos sindicatos que perseguem qualquer trabalhador oposicionista no local de trabalho, salvou a nação.
Enfim, a defesa da democracia é a defesa das relações capitalistas de compra e venda. A democracia é a forma socialdas relações capitalistas (emana delas). A defesa da democracia por parte da esquerda, em condições de ausência real de risco fascista, não revela apenas seu limite programático, mas também a sua função de mantenedora da ordem do capital.
É por tudo isso que a adesão da esquerda a Lula não fortaleceu as condições para uma oposição de esquerda. Pelo contrário, a esquerda revolucionária só tem se enfraquecido e destruído desde que a polarização se consolidou, após 2015. A adesão ao lulismo, a capitulação à narrativa do fascismo, a submissão ao discurso anti-imperialista e o elogio pueril da democracia, deseducam a classe trabalhadora e a juventude, envenenando uma geração. A luta contra as medidas burguesas que o PT necessariamente tomará será mais difícil.
Apontado o fim do lulismo
É certo que os bolsonaristas, cientes do risco de derrota, usaram as suas máquinas de governos municipais e estaduais para influir no resultado do segundo turno. Mas as ações dos petistas à frente da máquina nacional – com maior destaque para a antecipação, com aumento, do bolsa família – não significaram outra coisa. A tendência é agora o resultado se legitimar processualmente.
O PT governará o executivo burguês outra vez. Em gestão possivelmente até mais à direita, pois o legislativo – graças ao desejo legítimo de parte da população de impitimar ministros do STF, a começar por Moraes – foi ocupado por bolsonaristas. Claro, boa parte destes são aventureiros, fisiológicos, do tipo do centrão pragmático, que passarão sem grandes dificuldades a acordos com o Executivo, como sempre ocorreu. Potenciais Janones.
Uma coisa é certa: em quatro anos, Lula não será mais candidato. A partir de hoje, dia vitória do petista, está registrada a tendência histórica objetiva de saída de Lula da política brasileira. O fim do lulismo será ao mesmo tempo o fim do bolsonarismo.
Que os ventos do leste (a começar pelos da França) cheguem logo aqui. Serão certamente reprimidos pelo PT, associado aos bolsonaristas em seus estados da federação e municípios, mas o novo poderá surgir.